Os programas de governo apresentados para a corrida eleitoral trazem concepções antagônicas sobre a inserção internacional do Brasil. Enquanto o projeto de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dedica quase seis páginas à diplomacia com foco no protagonismo junto ao Sul Global, o documento de Flávio Bolsonaro (PL), com cerca de três páginas, prioriza a reaproximação com os Estados Unidos, Israel e Argentina.
Soberania e alianças estratégicas
O texto elaborado pela campanha petista aponta que o cenário global atravessa “conflitos sem precedentes” desde a 2ª Guerra Mundial e condena a “imposição de uma ordem mundial predatória”. Em contrapartida, defende a autonomia do país perante pressões externas:
“Faremos firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica. Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”, diz o documento.
Por outro lado, a candidatura do PL sustenta que a soberania deve se manifestar “na prática” e critica o que classifica de “bravatas”. O diagnóstico do partido afirma que “Nos últimos anos, a política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia”, reprovando a postura governamental sobre temas ligados ao Irã, à Venezuela e a Israel.
Flávio apoia medidas bélicas adotadas pelo governo de Donald Trump, incluindo a ofensiva contra o Irã e ações na Venezuela, além de se opor à tentativa dos Brics de contornar o dólar no comércio exterior. Já Lula condena ataques armados contra o território iraniano e investidas para capturar Nicolás Maduro, cobrando o respeito às normas jurídicas internacionais e vias pacíficas de diálogo.
“Não trataremos como adversários os nossos parceiros mais importantes e tradicionais. Nos últimos anos, as relações com países como Argentina, EUA e Israel foram levadas ao limite do rompimento. Vamos reverter esse quadro com profissionalismo e foco no interesse do Brasil”, afirma o documento de Flávio Bolsonaro.
Propostas para as Forças Armadas e defesa
Na área militar, o projeto de Lula vincula a segurança à diplomacia e ressalta os investimentos recentes viabilizados pelo Novo PAC:
“Neste cenário, política externa e defesa nacional são dimensões complementares de uma mesma estratégia voltada à proteção dos interesses do Brasil. Não há projeção internacional soberana sem capacidade de defesa”, diz o plano.
O petista lista entregas estratégicas recentes para comprovar o fortalecimento da área: “Desde 2023 já foram executados R$ 20,4 bilhões em projetos estratégicos. Entregamos 7 caças gripens-F-39, tendo sido produzida a primeira aeronave em solo brasileiro este ano. Adquirimos 3 cargueiros KC-390 fabricados no país. Estamos construindo 4 fragatas, a primeira já em operação. Produzimos 226 viaturas blindadas”.
Em sentido complementar, Flávio Bolsonaro concentra suas propostas em tecnologias avançadas, como veículos aéreos não tripulados e inteligência artificial, destacando:
“Os investimentos nas Forças Armadas devem ser condizentes com a inserção de um país que é membro de diferentes blocos e grupos de nações, voltados ao enfrentamento de desafios políticos e econômicos globais”, diz o documento do PL.
Disputa comercial: Sul Global versus pragmatismo ocidental
Lula defende uma postura diplomática universalista, buscando ampliar acordos bilaterais diante de tensões comerciais, como as tarifas impostas pela administração Trump que atingiram produtos brasileiros:
“Aprofundaremos a aproximação geopolítica com o Brics e com o Sul Global, bem como com o G20, espaços fundamentais para a afirmação dos interesses da maioria da humanidade”, diz o documento, que também prevê reforçar os laços com os países africanos e consolidar a América do Sul como uma “zona de paz”.
Já Flávio aposta na atração de capitais e na abertura irrestrita de mercados para o agronegócio e a indústria brasileira:
“Negociaremos com todos os que interessam ao Brasil, da China à União Europeia, dos Estados Unidos aos mercados asiáticos, porque o que orienta a nossa diplomacia é o interesse do produtor e do trabalhador brasileiro, não a simpatia ou a antipatia por este ou aquele governo.”
Minerais críticos e corrida tecnológica
Com a segunda maior reserva global de terras raras — somando cerca de 21 milhões de toneladas, atrás unicamente da China —, o Brasil ocupa papel central na transição energética mundial. Para o setor, Lula planeja agregar valor industrial internamente:
“Promoveremos uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos”, diz o projeto de governo.
Flávio enxerga esses recursos minerais como chave de conexão geopolítica com Washington. Em evento nos Estados Unidos, ele declarou: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do Hemisfério será lutado porque o Brasil é a solução da América [os EUA] para quebrar a dependência da China de minerais críticos, especialmente dos elementos de terras raras”.
OCDE e o futuro do Itamaraty
Enquanto a campanha de Lula acusa a oposição de subserviência aos interesses norte-americanos por apoiar sanções e tarifas contra o Brasil, o plano de Flávio sustenta que restabelecerá a competência técnica da diplomacia nacional e estabelece como meta a integração do país à OCDE.
“A adesão à OCDE é mais do que um selo: ela exige convergência das nossas normas aos padrões internacionais, melhora a governança das empresas estatais, reduz a corrupção e integra o Brasil às melhores práticas globais”, justifica Flávio Bolsonaro, selando duas visões contrastantes sobre a presença do Brasil no cenário internacional.






